O novo livro de FAM Santos, que será publicado ainda este mês (setembro de 2026), reúne contos escritos durante o ano de 2025.
Este é um livro de terror ou é um policial?
Será um livro "docemente estranho" e "horrivelmente engraçado" ?
Desubra-o.
Nota Inicial
Esta colectânea poder-se-ia chamar Contos de Azar
embora não seja o azar, entendido como a falta de sorte, o factor determinante
em cada uma das histórias. Dir-se-ia que a mão invisível que conduz cada conto
é o inesperado, o não programado, enfim, a lei de Murphy. Esta lei, como se
sabe, pode ser expressa da seguinte forma: “Se alguma coisa pode correr mal,
ela correrá mal”. Esta famosa lei não faz parte de nenhum dos ramos conhecidos
das ciências. Atribuída ao Eng. Edward Murphy (1940), expressa o sentimento
comum de que a maioria das vezes os planos não correm como delineados, apenas
porque o mundo é demasiado complexo e há variáveis de que nos esquecemos ou que
nem sabemos que existem. Poderíamos, então, intitular a colectânea de Contos da
Lei de Murphy. Mas, na verdade, não são contos que tenham como tema a famosa
lei. Assim, salvo melhor e futura opção, deixemos que o título seja indicativo
e não enganador: um caso, o do Guarda Gervásio, e outros contos.
Eis, em primeira mão, um dos contos.
O cuidador de
Bonsais
Na passagem do ano lectivo, do nono para o décimo ano, tinha recebido uns binóculos. Mais leves e mais potentes do que os que tinha há vários anos. Destinavam- -se, segundo os seus pais, a incentivar, se possível, o interesse do garoto pela observação de pássaros. A ornitologia era actividade da família desde há muito anos e o Miguel tinha-se integrado nela com toda a naturalidade. Eram muitas as manhãs e as tardes de sábados e domingos, que passavam na Pateira de Fermentelos a observar as garças vermelhas, os garçotes e as águias-sapeiras, as preferidas do petiz.
Mas Miguel tinha descoberto, há muito tempo, outra actividade de observação que lhe dava mais prazer que a observação dos passarocos. Não por mero acaso, tinha descoberto que observar alguns vizinhos podia ser divertido, excitante e, até, em alguns casos, bastante deprimente, como era o caso do casal recentemente chegado a um dos prédios que ficava quase fora do bairro, mas que era visível da janela do seu quarto. Era raro o dia em que não havia discussão. Obviamente, Miguel não conhecia o teor das conversas, mas os gestos de cada um dos protagonistas diziam-lhe que não eram conversas mansas, mas valentes discussões. Até já tinha assistido a cenas de pancadaria. De acordo com a sua interpretação, baseada em casos semelhantes vistos na televisão, aquilo iria correr mal um dia destes, e Miguel previa que seria a senhora a sair mal da situação.
Divertido era observar os dois putos do quarto andar do prédio em frente. Eram uns autênticos diabos a correr por todo o apartamento e a saltar para os sofás. Por vezes engalfinhavam-se em lutas mais ou menos aguerridas, mas felizmente nenhum deles se magoava. A mãe e o pai bem berravam com eles – os gritos não lhe chegavam, felizmente, aos ouvidos, mas as expressões faciais e o gestos de ambos eram como berros – mas os miúdos eram do piorio.
Estranho era o sujeito do terceiro piso do prédio da esquina. Um indivíduo baixo, magro e com cabelo castanho claro, tão liso e fino que pareciam fios de seda. O homem passava boa parte das noites a tratar de umas quantas árvores, tão pequenas que pareciam brinquedos. Miguel sabia que eram os famosos bonsais. O sujeito devia ser um artista, pois até Miguel achava algumas das árvores autênticas maravilhas. Algumas, poucas, até frutos tinham. Tinha identificado uma macieira e uma laranjeira.
Mas a observação preferida era quando a senhora do quinto piso do mesmo prédio se despia e andava em roupa interior pela casa. Miguel conhecia-a: trabalhava no cabeleireiro do Centro Comercial. Chamava-se Odete. Devia ter vinte e poucos anos e Miguel nunca tinha visto um ser masculino no apartamento. Ele achava que ela sabia que ele a observava ou, pelo menos, ele gostava de pensar que ela se mostrava para provocá-lo.
Sempre que podia, Miguel ia passear ao Centro onde ela trabalhava e ficava sentado num sofá que havia em frente do cabeleireiro, a observá-la. Às vezes parecia-lhe, tinha quase a certeza, que ela reparava nele e lhe sorria. Uma ou outra vez esteve quase a fazer-lhe adeus, mas conteve-se. Odete tinha já lugar em muitos dos seus sonhos, mesmo naqueles em que dormia profundamente e acordava quando estava quase a beijá-la. Era frustrante e, infelizmente, ele já aprendera que a continuidade daqueles sonhos não era garantida quando voltava a adormecer. Uma dupla frustração, era o que era.
*
A empresa que comercializava árvores de jardim e era especializada em bonsais, ficava a uns cinco quilómetros do bairro de Miguel. O proprietário – Sr. Rui – e os seus empregados, eram de uma dedicação extrema àquelas pequenas árvores. Tratavam-nas como se fossem de uma espécie em vias de extinção. E, para ser honesto, tinham conseguido que algumas delas, ali nascidas, estivessem vivas há mais de trinta anos, tantos quantos a empresa tinha. Claro que as havia com o dobro e até mais dessa idade, mas essas tinham “imigrado” do Japão, na maioria dos casos.
Todos os empregados
dedicavam o seu tempo a tratar a enorme colecção de bonsais, mas o Sr. Rui
tinha uma especial consideração, respeito e até admiração, pelo Sr. Júlio, que
o acompanhava há vinte e cinco anos e era um especialista. Mais que isso, era
um devoto daquelas árvorezinhas, um cuidador. A propósito, o Sr. Júlio costumava
dizer que ele não tratava de bonsais, pela simples razão de que eles não
estavam doentes. O que ele fazia era cuidar dos bonsais, para que nada de mal
lhes acontecesse.
Ele gostava de coisas de pequenas dimensões. O seu automóvel era um FIAT 500, o seu apartamento, um T0, e o seu gato era um Singapura. Ele mesmo, tinha menos de um metro e meio de altura. Claro que, para ele, os bonsais não eram “coisas”, como o carro, a casa ou o computador; eram seres vivos de pequenas dimensões e isso tornava-os especiais. Todas as actividades por ele levadas a cabo, ligadas ao cuidado das pequenas árvores, como o transplante, a adubagem, a rega, a poda de manutenção ou de formação, eram realizadas no momento correcto e com uma precisão que mais ninguém alcançava. Júlio atingia o auge da perfeição quando se tratava da estilização dos bonsais. Fosse com recurso à poda simples ou recorrendo à técnica da armação, a arte de Júlio criava magníficas pequenas maravilhas.
Júlio não usava, nunca usara, nem admitia o uso, na sua presença, do termo “árvores anãs” para designar os bonsais. Aquelas árvores não eram assim por nascença. Eram cuidadas para que fossem como as árvores grandes, só que estas eram “conduzidas” a serem pequenas. Eram, portanto, intrinsecamente diferentes dos gatos e cães pequenos ou, por maioria de razão, dos anões humanos. Por vezes, questionava-se se seria possível fazer um bonsai humano. Não conseguiam algumas mulheres japonesas manter os pés pequenos, guiando-os a essa forma? Ficava deitado, na sua pequena cama, a pensar nas técnicas que se poderiam aplicar para criar tal maravilha. Tal como existem pré-bonsais, o que não faltava no mundo eram “pré-bonsais humanos”. Reconhecia, no entanto, que a maioria não eram bonitos o suficiente para se realizar uma obra de arte. E adormecia a pensar numa hipotética criação sua.
Como em qualquer viveiro, na empresa do Sr. Rui os dias eram passados entre a azáfama de tratar dos bonsais e a necessidade de atender clientes e fornecedores. O proprietário possuía um dom especial para captar a atenção e o interesse dos clientes. Era uma actividade rentável e a empresa facturava bem e estava numa situação desafogada.
Naquela manhã o Sr. Rui, acompanhado de um jovem casal, aproximou-se da bancada onde Júlio cuidava de dois esplendorosos espécimes de bonsai interior: dois Juniperus de 50 anos. Os clientes estavam interessados num daqueles exemplares. O Sr. Rui disse-lhes que a melhor pessoa para os acompanhar e aconselhar seria o Júlio, “o cuidador de bonsais”. Como era de esperar, o casal não possuía nenhuma experiência com aquelas árvores e, portanto, a conversa teve de se iniciar com as ideias básicas do que eram aqueles seres e dos cuidados a ter com eles. Precisavam de menos cuidados que uma criança, mas não se podia deixá-los “ao Deus dará”, sob pena de os perder. O casal acabou por adquirir um dos bonsais e Júlio ficou de o preparar e entregar na residência no dia seguinte.
Foi recebido pela senhora, que lhe indicou onde queria que o exemplar ficasse. O lugar cumpria as necessidades, no que se referia à temperatura e exposição solar, pelo que Júlio colocou o bonsai no lugar escolhido. Ao virar-se, para dar por terminada a entrega, reparou na presença de uma criança, de cerca de dois anos, de uma beleza extraordinária, onde se destacava um cabelo tão loiro que ele ficou boquiaberto e em silêncio. A mãe da criança, com um sorriso rasgado no rosto, disse: “Esta é a Laura, a minha filha”. Júlio apenas pôde balbuciar um “É muito bonita”, sem que os seus olhos abandonassem a miúda. A entrega estava concluída, as recomendações feitas, pelo que era tempo de voltar ao trabalho.
Júlio estava constantemente a recordar a criança que tinha visto. A perfeita proporção do seu pequeno corpo, da cabeça, dos braços e das pernas. Os ombros perfeitos. Júlio jurava que não tinha encontrado, em toda a sua vida, tão perfeito exemplar de corpo humano. Um perfeito “protobonsai humano”. Nos dias seguintes andou distraído e de mau humor, a tal ponto que o Sr. Rui o abordou para saber o que se passava. Júlio disse-lhe que andava cansado, talvez precisasse de umas férias. Ao fim de tantos anos de trabalho intenso, estava agora a sentir os efeitos de tanta dedicação. O empresário sentiu que seria bom, para todos, se ele se afastasse dali por uns dias, pelo que lhe concedeu as merecidas férias, recomendando-lhe que viajasse um pouco. Que se distraísse. Júlio agradeceu a atenção, que na verdade era esperada.
*
De férias estava, também, Miguel, que as aproveitava para várias actividades. Dedicava algumas horas à prática de basquetebol no clube local. Nessas saídas, arranjava sempre maneira de passar pelo Centro Comercial e ver Odete, o secreto “objecto” dos seus sonhos. Gastava várias horas a jogar na consola e no computador, como a maioria dos seus colegas e, mantendo segredo, gastava outras tantas a mirar os vizinhos através dos seus novos binóculos. E foi assim que Miguel notou que o vizinho do terceiro piso do prédio de Odete tinha deixado de ir trabalhar e que estava em casa muitas horas do dia. Devia estar de férias, como tanta gente, mas uma coisa chamou-lhe a atenção: havia, agora um pequeno divã que Miguel achava que seria para uma criança pequena, que não existia no T0. Pensou que o sujeito deveria esperar a visita de algum familiar. E então, um dia, a criança apareceu nos binóculos do jovem ornitólogo. Não lhe pareceu que a criança estivesse bem, pois estava a chorar e, apesar dos esforços do homem, não lhe parecia que o choro fosse parar. Miguel não viu ninguém que pudesse ser a mãe da criança. Era verdadeiramente intigrante: o que fazia aquela miúda ali, sem a sua mãe? Talvez viesse mais tarde! Miguel mudou de alvo e concentrou-se no apartamento do quinto piso.
No dia seguinte, constatou que a mãe da criança continuava a não estar no
T0 e que a miúda dormia horas seguidas. O mistério adensou-se quando, no
noticiário da noite, viu a notícia do rapto de uma criança. Miguel ia jurar,
pela fotografia que divulgaram, que aquela era a miúda que estava no T0.
Permaneceu, contudo, calado. Não queria ser descoberto e acusado de voyeurismo. Mas não podia deixar de
denunciar aquela situação. A única hipótese que via era fazer um telefonema
anónimo para a polícia. Teria de ser feito da rua. De um telefone público. O
único que conhecia era o que estava na estação do caminho de ferro.
Na manhã seguinte, dia de treino de basquetebol, passou primeiro na estação, confirmou que o telefone funcionava e, que sorte, não havia nenhuma câmara de vigilância a cobrir aquela área. Ligou para o 112 e sem se identificar deu a morada do T0. Desligou e foi para o treino, onde chegou com um pequeno atraso.
Quando chegou a casa, deu uma espreitadela ao T0 e verificou que este estava vazio, sem sinais da criança nem do homem. Não sabia se teriam saído ou se a polícia já teria actuado. Só suspirou de alívio quando à noite, no noticiário, deram conta de uma missão bem sucedida da polícia na recuperação da criança raptada.
Escrito entre 2 e 5 de Agosto, 2025